Assistindo a 2 Coelhos e, logo depois, encontrando o diretor, roteirista, produtor e editor Afonso Poyart, me trouxe uma única coisa à cabeça: “Sucker Punch”. O filme de Zack Snyder, que dividiu opiniões, não tem absolutamente nada a ver com a estreia de Poyart nos longa-metragens. Mas são dois diretores jovens, que cresceram consumindo e gostando de cultura pop, que fizeram um filme com aquilo que eles tinham na cabeça e sentiam vontade de expor. E se você olhar direito pro brasileiro, que no fim do ano passado deve ter ficado bem triste com os 4×0 do Barcelona, ainda vê uma certa semelhança física… E fica só nisso. E na personagem de Alessandra Negrini cortando seus demoninhos ao meio, com uma espada.
“Sucker Punch é isso, tem uma alegoria visual, mas faltou a alma, ali dentro, aquela história não vai pra lugar nenhum…”, me disse ele, logo na primeira resposta da entrevista exclusiva que fizemos, num hotel aqui em São Paulo. Eu jurava que iria poder viajar enlouquecido na história criada por Snyder, mas não. Poyart é muito mais pé no chão, é muito mais ciente das coisas, ciente dos problemas, ciente do Brasil. É seu filme de estreia, não seu filme maluco que resolveu fazer depois de ter cuidado de algumas das franquias mais importantes da cultura pop universal.
- 2 Coelhos: videogame, ação, efeitos especiais e Alessandra Negrini. Que sirva de exemplo, Brasil.
Nunca antes na história desse país se viu um filme como esse. E espero que a gente possa ver mais, muito mais.
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Citando influências de Quentin Tarantino, Guy Ritchie e, principalmente, Fernando Meirelles (“Cidade de Deus é um dos melhores filmes que eu já vi. Não o melhor filme brasileiro, é um dos melhores filmes, ponto”) e dizendo que jamais pensou que Alessandra Negrini fosse fazer um filme seu (“Meu primeiro, ninguém me conhece…”), falamos bastante sobre essa coisa de pós-produção, sua importância para o cinema (e pra “2 Coelhos”), essa coisa de se fazer cinema entretenimento, negócio, o que ele sonha em fazer no futuro, seus pesadelos com a pirataria, com a S.O.P.A, e até sobre seu próximo filme, uma cinebiografia de José Aldo, oOOoOooO lutador, que ele cogitou fazer em 3D.
Confere aí embaixo, e torça pra que ele faça muitos e muitos outros filme… :)
Afonso Poyart ~ Sucker Punch eu vi depois de fazer 2 Coelhos. Cara… Eu tinha muito medo de fazer um filme com um monte de efeito visual e sem conteúdo, sem história, sem… Sem aquela alma que eu acho que todo filme tem que ter, não importa o jeito que seja filmado, meio fora de foco, sei lá. Mas se tiver… Sabe, aquela coisa? É um filme bem sucedido. Sucker Punch é isso, tem uma alegoria visual, mas faltou a alma, ali dentro, aquela história não vai pra lugar nenhum… Mas é lindo, lindo, lindo.
Afonso Poyart ~ Com certeza!
Afonso Poyart ~ Eu comecei minha carreira como animador, o cara que faz pós-produção, então eu já trabalhava com isso, essa coisa de elementos gráficos, 3D. Foi muito natural pra mim pensar algumas passagens do filme usando isso. E como o personagem principal é meio nerd, meio geek, como eu também sou um pouco, eu resolvi colocar isso na narrativa, então tem essa coisa do videogame, de quadrinhos, mas não explicitamente, animação… É como se a vida do cara fosse daquele jeito, é como ele vê, a maneira como ele enxerga o mundo, como se fosse um videogame maluco…
Afonso Poyart ~ Não, não, veio vindo depois! Na hora que eu fui editar eu fiquei pensando “Pô, será que seria legal a gente parar o quadro, escrever o nome dos caras?”. E tinha muito personagem, a gente tinha de escrever o nome de cada um pra pelo menos começar a localizar as pessoas de quem é quem, minimamente. Aí a gente veio com aquele conceito gráfico, que foi um amigo meu que fez, aquele grafismo — que eu acho muito legal, ele fez a mão, muito louco.
Afonso Poyart ~ Puta merda… Isso é louco. Eu sempre gostei muito da Fátima Toledo, que fez “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”. Principalmente com “Cidade de Deus” eu fiquei muito impressionado. Quando eu fui fazer o meu primeiro longa eu tinha de falar com ela. Só que eu acho que existem coisas que a Fátima funciona muito, e outras que não precisa tanto… Ela é muito visceral, muito porrada. A gente precisava fazer ensaios. A gente precisava ensaiar os atores, e não tínhamos muito cronograma. Eu resolvi então, por que não chamar a Fátima, pra fazer uma preparação, meio ensaio. Foi mais ou menos isso o que ela fez. Acho que ela ajudou muito o Bando, construiu aquilo junto com eles. E a naturalidade, etc. A Alessandra e o Fernando fizeram bastante laboratório, deixou a relação deles mais viva — quando chegou a hora de filmar, já tinha uma relação, os caras já chegaram, batendo.
É muito importante preparar o elenco ou minimamente ensaiar ele exaustivamente pra que crie conexões, porque se conquista mais naturalidade. Ainda mais num ambiente em que eu fico pedindo pros caras improvisarem, e nessa hora você começa a ser você e se realmente há empatia com alguém, deixa transparecer; se não tem, fica mais distante…
Afonso Poyart ~ Não, não. Pra quem faz, ação não é tão ação quanto pra quem vê. Eles tinham de fazer um negócio, correr e cortava, pronto. Aí um close, não sei o que… Mas eles viram o filme não tanto quanto um filme de ação, eu também não vejo ele tanto assim…
Afonso Poyart ~ Isso sim, tem muita ação…
Afonso Poyart ~ Hoje em dia não dá pra você ignorar mais isso. Os diretores, a equipe de produção, as pessoas que desenham como vai fazer uma cena, olham as cenas mais complexas e pensam no que vai ser filmado, no que pode ser produzido, um meio a meio — se não você gasta dinheiro e se complica. Você não vai fazer uma cena grandiosa, com mil figurantes, tem de saber que você vai duplicar isso na pós, fazer um set extension, que é aumentar o cenário, aumentar ou fazer uma explosão inteira… A cabeça de quem produz filme HOJE é assim. O que eu filmo, o que eu posso pós-produzir? Eu penso assim e é assim que tem de se pensar, se não você se ferra…
Afonso Poyart ~ Eu quero, é meu sonho, de verdade! Fazer essas coisas, experimentos, trazer tecnologias de fora, que os caras aplicam em filmes internacionais, por que não produzir aqui? O Peter Jackson conseguiu fazer isso na Nova Zelândia com Senhor dos Anéis. Criou um pólo de cinema lá, que não existia, forjou na porrada. Pôxa, seria um sonho, maravilhoso. O Brasil é gigante, tem um monte de gente, é próximo de grandes mercados, embora não tenha a mesma língua, mas enfim, a gente tem MUITA possibilidade aqui. O Brasil precisa desenvolver isso, é a sexta economia, tá crescendo, por que não o cinema? O cinema tem de vir junto. A gente precisa de mais salas.
Afonso Poyart ~ É, pois é, fico louco com isso.
Afonso Poyart ~ Sinceramente, acho que falta escolher qual vai ser o cara escolhido pra ir lá lutar essa briga.
Afonso Poyart ~ Eu acho que sim, foi o nosso melhor filme do ano, tem que ser! Escolhem sempre o que não é!
Afonso Poyart ~ Não é tudo, com certeza. É lógico que seria muito legal um mercado ter um reconhecimento como esse, mas os argentinos ganharam um Oscar e o que mudou como mercado pra Argentina, mesmo, não teve uma mudança em número de bilhete vendido ou sei lá. Mas é um reconhecimento que dá pra um país inteiro, não só pro cinema, traz um reconhecimento muito bacana, e o Brasil tem condições de fazer isso. Tem de haver uma coligação das pessoas pra “pô, qual o nosso melhor cavalo pra essa corrida? Vamo apostar nele, não vamo apostar no que não é o melhor”. Porque senão a disputa fica muito difícil, é muito complexa a batalha…
Afonso Poyart ~ Tem, mas não muito, viu? A gente utilizou MUITA coisa.
Afonso Poyart ~ A gente já até preparando o DVD. O cronograma é tão curto que os caras já me pediram uma cópia pro Blu-ray. Vai ter um documentário sobre o filme, bem legal, com making of gigante. Mas olha, bem pensado, eu acho que a gente devia pensar mais em extras…
Afonso Poyart ~ É o extra, né? Se bem que não tem assim, o filme é muito justo. Não se cortou coisa nesse filme, usamos tudo!
Afonso Poyart ~ É, pois é. O filme começou sem distribuição, é um projeto muito independente, na verdade. A gente foi produzir com o dinheiro praticamente próprio, 80% dos recursos desse filme é da Black Maria, 20% de incentivos. Depois a gente conseguiu a Imagem Filmes, que viu e resolveu entrar nele, no começo de 2011. Eles programaram o filme pra estrear em Julho, mas não rolou; Outubro também não e agora ficou em Janeiro. A coisa foi andando, o filme melhorando, lapidando… E eles foram entendendo mais o filme, também. A Imagem teve dificuldade de classificar o filme, foram muito corajosos de fazer um lançamento do jeito que estão fazendo, difícil de entender, classificar, colocar em algum patamar…
Afonso Poyart ~ É, e a molecada fica louca! A gente fez exibições de teste pro público e foi muito boa, a recepção. Aí que realmente vieram com “Vamo lançar!”.
Afonso Poyart ~ Eu sou muito contra. Mas isso é muito difícil. Há sempre uma discussão, da liberdade de expressão, de poder ir, vir, fazer as coisas, e essa coisa de piratear o conteúdo, que é extremamente nocivo para a indústria. Eu como produtor, agora como diretor, sou absolutamente aterrorizado com essa história. Eu sei que isso complica nossa vida, a gente precisa dessa renda, se remunerar pra fazer um próximo. E a indústria não pode ficar na mão de pessoas assim. No Brasil deveria ter uma política mais efetiva de combate. É muito díficil, mas algum esforço tem de acontecer, porque você diminui um pouco e diminuir já é bom. Erradicar é foda, mas diminuir…
Afonso Poyart ~ Eu acho que é bom, é um negócio que pode diminuir. O modelo da iTunes Store é um modelo muito bem sucedido na minha opinião porque é barato, barato, barato. Eu compro muita música lá porque é mais barato e fácil pagar 99 centavos de dólar do que ir atrás, tem link quebrado, não acha… E nos EUA eles tão combatendo muito link de coisa pirata, então você começa a não encontrar. Eu acho que tinha de acontecer isso no Brasil também, combater online.
Afonso Poyart ~ Então, é uma maneira de fazer o cara pensar “pra que eu vou piratear, se isso é tão barato?”
Afonso Poyart ~ É sobre o José Aldo, o lutador que foi campeão agora. Não é documentário, é ficção mesmo, já escrevi, Malvino Salvador vai interpretar, Paris Filmes vai distribuir, já temos uma grana e vai rodar agora em Julho/Agosto.
Afonso Poyart ~ Julho de 2013.




Ele está de parabéns. Ótimo filme.