Uma mãe, feliz, sorrindo, e seu filho atravessando a rua. Em câmera lenta, ela dá no máximo dois passos, de mãos dadas com o moleque… Até que chega do nada um carro e esmaga os dois numa caçamba e puuuuuta que pariu, “ôôôôôôlôco, COMO ASSIM?!”, ao som de “Kings & Queens”, do 30 Seconds to Mars. Esses, sei lá, oito segundos são só o início do filme? Sim. 2 Coelhos não começa só com os dois pés no peito — esmaga uma mãe e um filho numa caçamba.
Minha primeira impressão sobre o filme, quando assisti ao trailer, há pouco mais de um mês, foi bastante simples: do caralho. Ação, efeitos especiais, uma história que foge completamente do que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro — pelo menos entre os que estão acostumados a ver cinema brasileiro, o que a gente sabe, é pouca gente, e por algumas razões bem explícitas. Como eu disse na época, eu vejo esse tipo de coisa sendo feita no Brasil, onde eu moro, onde eu trabalho, e não consigo pensar em nenhuma outra frase, ou palavra, pra definir. Pode ser que o resultado final seja horrível, mas esse trailer é DO CARALHO.
Então, vamos começar direto ao ponto: o filme talvez não seja tão do caralho assim. O filme talvez não exploda tanto a sua cabeça quanto o trailer. Talvez… Isso depende se você assistiu a ele, ou não.
No filme, Edgar (Fernando Alves Pinto) encontra-se na mesma situação que a maioria dos brasileiros, espremido entre a criminalidade, que age impunemente, e a maioria do poder público, que só age com o auxilio da corrupção. Cansado de ser vítima desta situação, ele resolve fazer justiça com as próprias mãos e elabora um plano que colocará os criminosos em rota de colisão com políticos gananciosos. Só que, bem… O plano dele é muito maior.
“Queria fazer um filme contemporâneo. Primeiro procurei um livro pra adaptar, mas eu percebi esse era meu primeiro filme e eu ia ter de escrever, não ia ter jeito”, contou o estreante diretor Afonso Poyart na coletiva de imprensa realizada em São Paulo, um pouco antes de falar exclusivamente com o Judão. “Eu queria contar uma história que envolvesse corrupção e criminalidade, dois temas bem atuais e presentes na vida de qualquer brasileiro. Foi assim que surgiu o mote inicial, um justiceiro, cara comum que monta um plano de vingança pra dar uma porrada nos corruptos e criminosos. Mas aí eu comecei a escrever e as ideias começaram a aparecer e isso virou um pretexto, quase. A jornada desse cara vai muito além disso, além dessa coisa de justiça social.”
E é verdade. Por mais que as grandes cenas de ação e efeitos especiais estejam, sim, presentes no trailer, é a história que dita o filme, desde o início, quando te apresenta os personagens — e toda a estética que vai ser usada no filme dali pra frente — até o final, cheio de reviravoltas e com um bom tanto de falta de linearidade, criada muito mais pela quantidade gigantesca de personagens do que pela história, em si.
O cinema tem de ser variado. Às vezes o cinema nacional se coloca em alguns paradigmas que são complexos, tipo, só comédia dá certo; sou contra isso, você pode conseguir bilheteria com vários gêneros. E esse tipo de cinema, que a gente não consegue classificar direito mas você pode chamar de filme de ação, tem público. Por que não ter público num filme nacional? É só você fazer direito, com carinho, com vontade. –Afonso Poyart, diretor de 2 Coelhos
Nerd
É obvio, porém, que são as cenas de ação que vendem o filme — e não à toa estavam no trailer, o que eu não posso achar errado, sabendo o país em vivemos. E cara, é realmente FODA saber que aquilo tudo foi feito no Brasil-il-il, com apenas R$4 Milhões — sendo que apenas R$1.5 Milhões é que vieram de incentivos do governo. “Eu não tinha noção da encrenca que eu tava me metendo. De verdade. Eu não sabia que era tão difícil assim, mas eu tava lá, não tinha como voltar”, conta o diretor, falando com a empolgação de um moleque que ganhou do Papai Noel o brinquedo que esperou o ano todo. Caco Ciocler, que interpreta Walter, um dos personagens mais interessantes do filme, conta que Poyart, por mais que diga que não, sabia onde iria acabar chegando com “2 Coelhos”. “Uma das coisas que mais chamou minha atenção no nosso primeiro encontro pra falar sobre o filme foi, e eu digo isso da melhor maneira possível, uma pretensão quase ingênua dele, muito apaixonada, muito bonita, dizendo coisas tipo “Eu não entendo! Os caras queriam milhões pra fazer os filmes, ninguém faz nada direito!”. Existia uma vontade já ali de fazer uma coisa que nunca tinha sido feita, de um tamanho que nunca tinha sido feito, porque ele sabia que era possível fazer uma coisa que nunca tinha sido feita no Brasil.”, contou.
E é um fato: nunca antes na história desse país se viu um filme como esse. Com efeitos especiais, já, sim. Poucos, e todos dirigidos por Cláudio Torres. Mas com esse tanto de explosão, batida de carro, tiroteio e toda essa estética urbana que São Paulo e os grafismos adicionados na pós-produção deram? Isso, não. “Você tem muitos profissionais no Brasil, em várias áreas, que as vezes não utilizam tudo o que eles sabem. A gente foi atrás desses caras, que tinham muito potencial, equipamentos, e não tinham onde colocar. A parte de efeitos físicos a gente fez com o Farjalla, que fez ‘Os Mercenários’, por exemplo, e ele tava muito a fim de entrar no projeto porque ele viu que seria muito legal usar todos os brinquedos dele, toda a experiência.”
A gente cresceu jogando videogame… Aquilo é videogame de verdade. –Fernando Alves Pinto
Com uma história tão cheia de reviravoltas, com tantas possibilidades e sem nenhum policial sequer, o filme acaba sendo um daqueles que ninguém sabe exatamente como classificar. Ação? Tem ação, sim, mas não é de ação. Romance? Tem uma história de amor bem forte, mas não é sobre isso. Policial? Se não tem polícia… Suspense? Meh… Sobrevivência? Bom, foi assim que o Ministério da Justiça classificou, e é o que chega mais perto.
Porém, foi Alessandra Negrini, que deixa qualquer um boquiaberto e babando em cada uma das cenas do filme — especialmente as de calça jeans e camiseta, porque né? — que acabou dando uma classificação mais do que atual para o filme. Ao elogiar a natureza independente e autoral do projeto, ela, sorrindo, vestindo uma camisetinha dos Ramones e com aquela cara de sapeca, como se fosse dizer o maior palavrão do mundo na frente da avó, disse que é um filme “nerd”.
Meu saco já tá cheio dessa história de “nerd”, “nerd is cool”, “I love nerds”, a puta que pariu. Mas faz sentido. É esse público jovem, que gosta de tecnologia, de cinema blockbuster, que tá na internet o tempo todo, em rede social, expondo opinião e, tal qual o personagem principal do filme, jogando e vendo pornografia (e que se condicionou chamar de Nerd) que vai consumir o filme. Consumir e apreciar, porque é disso que se trata: não é um filme de arte, nem tenta ser; não é comédia ou um enorme Zorra Total; é entretenimento. Puro e simples. Lindo, emocionante, mas entretenimento, empolgante. Do jeito que eu gosto, do jeito que eu acho que tem de ser.
Made in Brazil.
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